Brasil de volta ao berço da zebuinocultura

31/07/2020

Por: Natália Escobar – Revista Pecuária Brasil



Governos brasileiro e indiano anunciaram compromisso formal que projeta desburocratizar e dobrar o comércio bilateral para US$ 15 bilhões até 2022, o que pode impactar na evolução genética dos rebanhos predominantemente zebuínos dos dois países.



Entre os dias 22 e 27 de janeiro, uma comitiva do Governo Federal brasileiro visitou a Índia, onde foi recebida.



com festa. O objetivo da visita era prospectar parcerias comerciais com o país berço da zebuinocultura, e deu resultado. Comandada pelo presidente Jair Bolsonaro, o grupo de brasileiros contou com nomes de vários setores, inclusive da agropecuária, representada pela ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina, o diretor de Relações Internacionais da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Gedeão Pereira,



o presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ), Rivaldo Machado Borges Júnior, e o pecuarista e diretor de Marketing da Associação dos Criadores de Guzerá e Guzolando do Brasil (ACGB), Eros Gazzinelli.



Durante a visita oficial, os governos indiano e brasileiro se comprometeram a dobrar o intercâmbio comercial entre os dois países até 2022, de US$ 7 bilhões para cerca de US$ 15 bilhões. Após a visita, Brasil e Índia divulgaram um comunicado conjunto, disponibilizado pelo Itamaraty, com 48 pontos, seis na área de agricultura, pecuária e processamento de alimentos. Em 2019, o Brasil exportou US$ 841 milhões em produtos agropecuários para o país asiático. Óleo de soja, açúcar de cana e algodão foram os destaques nas vendas e representaram cerca de 70% da pauta exportadora do agro brasileiro ao país.



O acordo sinaliza vantagens futuras para as exportações de outros produtos agropecuários. Para Gedeão, em dez anos o Brasil será um grande fornecedor de alimentos para aquele país. “Hoje, a população da Índia ultrapassa 1,3 bilhão de pessoas e em pouco tempo será a maior do mundo. No médio e longo prazo, ela terá de importar alimento de outros países, uma vez que o campo não está preparado para atender esse consumo interno crescente”, afirma o diretor da CNA.



 



Tecnologia em pesquisa



 



Para além das vantagens do comércio bilateral, a pecuária foi protagonista de um acordo que prevê transferência de tecnologia em reprodução animal e pesquisa em genômica bovina. Segundo nota do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), a declaração “prevê cooperação em sanidade animal (comércio de animais, material genético e produtos de origem animal), que envolve pecuária e pesca; capacitação técnica (assistência técnica, cursos e estágios e transferência de tecnologia em reprodução animal) e pesquisa em genômica bovina e intercâmbio mútuo de germoplasma (material genético)”.



Há expectativa, ainda, de que o Brasil coopere na instalação de um Centro de Excelência em Pecuária Leiteira no país asiático. De acordo com o presidente da ABCZ, na Índia a prioridade é o leite. “Lá o produtor começa levando dois litros de leite para cooperativa, que conta com centenas de milhares de cooperados, o que torna a pecuária leiteira deles uma das maiores do mundo. Por isso, conversamos sobre o Centro de Excelência com a ministra Tereza Cristina e ela quer o apoio da ABCZ, pois, afinal, a Índia é o berço do zebu, que foi tão bem selecionado aqui, e agora está na hora de ‘devolvermos’ essa tecnologia para eles”, conta Rivaldo, ressaltando que a atuação da ministra foi excelente e que toda comitiva brasileira foi muito bem recebida.



Aproveitando a ocasião, a ABCZ e o governo indiano, por meio do Conselho Nacional de Desenvolvimento da Pecuária Leiteira da Índia (National Dairy Development Board’s - NDDB), assinaram uma Declaração Conjunta de Cooperação Técnica. O documento foi estudado pelas duas instituições nos últimos meses e levado ao país asiático pelas mãos de Rivaldo.



O NDDB é a entidade governamental indiana responsável por promover, financiar e fornecer assistência técnica aos pecuaristas e suas cooperativas, bem como conceder apoio a políticas públicas em favor do desenvolvimento de tais instituições. “Sem dúvida, o acordo consagra com chave de ouro nossa viagem técnica à Índia”, comemora Rivaldo, explicando que o objetivo do acordo é aumentar a produtividade, promover o bem-estar e a saúde animal, além de melhorar a condição socioeconômica dos produtores rurais nos dois países.



Pelo acordo, as duas entidades se comprometem a empenhar esforços conjuntos para desenvolver a pecuária leiteira no Brasil e na Índia, por meio de pesquisa e desenvolvimento, tecnologia, inovações e extensões que promovam o aprimoramento genético, aumentem a produtividade e melhorem a qualidade da produção leiteira. “Tenho certeza que temos muito a contribuir para o avanço das raças zebuínas. A Índia é o país berço do zebu e o Brasil ficou mundialmente conhecido pelo trabalho de melhoramento genético que desempenha.



São duas potências mundiais e que, juntas, vão trazer ainda mais progresso para a pecuária”, completa o presidente da ABCZ.



O acordo foi chancelado pelo Mapa e pelos Ministérios da Pecuária, Pesca e Lácteos e das Relações Exteriores da Índia. “A ministra Tereza Cristina, e o adido agrícola do Mapa na Índia, Dalci Bagolin, foram fundamentais para a celebração deste termo de cooperação. A eles, nossos sinceros agradecimentos”, acrescenta.



 



Intercâmbio genético



 



Já existia um acordo para transferência de tecnologia entre Brasil e Índia, e as exportações de material genético estavam abertas desde 2010, porém, até então, era uma transação burocrática. “Abordamos essa burocracia durante a visita ao país, e agora acreditamos que será desburocratizado para viabilizar ainda mais negócios. O Brasil pode contribuir muito para o desenvolvimento do rebanho indiano, pois aqui nós evoluímos muito no melhoramento genético das raças zebuínas, em sua maioria de origem indiana. Lá eles não têm, por exemplo, o controle escriturário que a ABCZ já desenvolve há muito tempo. Em contrapartida, a Índia possui um rebanho de 190 milhões de cabeça, que pode dar um ‘choque’ de heterose genética nos nossos animais.



Então, só temos a ganhar com essa maior abertura”, pontua Rivaldo.



Além de participar da missão oficial a convite da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex), o pecuarista Eros Gazzinelli, da GenBra Agropecuária LTDA, estendeu sua agenda na Índia para conhecer mais sobre a origem da raça que seleciona, o guzerá, e fazer contato para futuro intercâmbio genético. De acordo com ele, o Brasil tem muito a oferecer ao rebanho indiano no quesito genético, e vice-versa. Por isso, visitou criadores tradicionais da raça, universidades e centros de pesquisa, aumentando sua rede de contatos indianos que já havia começado em 2018, quando visitou a Índia pela primeira vez.



Ele foi, inclusive, o primeiro brasileiro do século a visitar a Universidade Agrícola Sardarkrushinagar Dantiwada, instituição que desde 1978 realiza o melhoramento genético para leite do kankrej, a raça mais antiga do mundo, aqui chamada de guzerá.



“Voltei para o Brasil muito enriquecido e bem impressionado com o sistema utilizado e os resultados alcançados pela equipe técnica do doutor Harshad, profissional a frente da supervisão geral da Universidade. Eles possuem uma genética diferenciada, que pode acrescentar muito ao rebanho brasileiro”, conta.



Para Eros, nos anos recentes, a importação brasileira de genética indiana buscou por indivíduos em outras regiões. “Foi trazido para o Brasil material genético de animais das áreas desérticas, muito rústicos e muito bonitos, por vezes, com funcionalidades diferentes do que selecionamos aqui na maioria dos criatórios. Nossa pretensão é buscar a genética de excelência para produtividade leiteira que sabemos que a Índia tem. Nosso interesse é no rebanho indiano de alta performance, geneticamente melhorado, avaliado com outras métricas, diferentes das nossas, mas de grande responsabilidade e embasamento científicos. Esses animais podem contribuir para heterose e evolução genética da pecuária de leite no Brasil”, afirma.



Em contrapartida, Eros conta que o governo indiano tem um compromisso com a população do campo de, nesta década, aumentar consideravelmente a renda do pecuarista através da produção de leite, o que pode ser um mercado em potencial para genética brasileira. “Eles estão muito interessados na genética leiteira que conseguimos selecionar aqui, através das forças unidas entre a ABCZ-PMGZ, CBMG e Embrapa com os criadores.



Por isso, acredito que a cooperação será muito interessante”, afiança o pecuarista.


ACGB © | Desenvolvido com por